Conto: Acabou a brincadeira

Oi, oi, gente!

Que tal um conto que apresenta um pouco o universo de Elementais misturando-o ao universo dos eventos de anime? Sim, exatamente! Este conto, de nome “Acabou a brincadeira”, foi vendido em uma revista especial com outras coisas legais relacionadas a Elementais em um evento aqui do Rio, e agora estará disponível para a leitura aqui no site!

Espero que gostem!

(Ilustração: Yumi Moony)

Conto: Acabou a brincadeira

Aquele seria o último grande evento de anime na cidade antes do fim das férias de verão. E o primeiro no bairro da Orla das Gaivotas, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Pela primeira vez, a Orla estaria realizando sua própria grande assembleia de fãs e apreciadores da cultura pop e música japonesas. E seria em uma de suas mais conceituadas escolas particulares, o Colégio Arcádia.

Por coincidência, Tatiana estudava no Arcádia e gostava de mangás, animes e derivados. Era um pouco estranho participar de um evento desses na própria escola, mas não foram necessários mais do que alguns minutos até que se acostumasse.

Estava de cosplay: blusa, saia e botas pretas, um belo laço vermelho em seu peito, uma pistola branca num coldre em sua perna e cabelos castanhos lisos e sedosos compunham uma impecável encarnação de Yūki Cross, protagonista da famosa série Vampire Knight.

Encostada à parede do pátio circular do colégio, ela aguardava um amigo voltar com bebidas, enquanto dava espiadas na movimentação de pessoas à sua volta e checava seu relógio a cada trinta segundos.

— Vamos lá, o concurso de cosplay deve começar daqui a pouco — disse um garoto a seus amigos, passando por Tatiana.

“Rodrigo, cadê você?”, perguntou-se a garota, cansada de esperar.

Tatiana achou que poderia dar uma volta; Rodrigo não teria tanta dificuldade de encontrá-la. Caminhou por estandes que vendiam fanzines, que, um ao lado do outro, rodeavam o imenso ipê-branco ainda não florido que havia no centro do pátio circular do Colégio Arcádia. Passou também por pessoas tirando fotos e televisões onde eram disputados campeonatos de vídeo game, enquanto ouvia a música de algum anime que não identificou que reverberava da quadra ali perto, tocada por uma banda iniciante.

— Tati! — chamou uma voz conhecida assim que ela se aproximou de uma das saídas do pátio.

Era seu amigo Rodrigo. Trazia uma sacola de Mupy, a bebida que estava para os frequentadores de eventos de anime assim como sangue estava para os vampiros.

— Ah, desculpa… — disse a garota, sua expressão sempre impassível, mesmo arrependida. — Resolvi andar um pouco por aí.

— Tudo bem, te achei rapidinho — disse Rodrigo, sorrindo e entregando-lhe um Mupy de maçã. — Aí, o concurso decosplay tá quase começando.

— É, eu sei.

— Vamos lá?

— Arrã.

— Por que cê não quis participar, hein? — perguntou Rodrigo, ao começarem a andar.

— Sou péssima atriz — respondeu Tatiana após um gole de canudo de sua bebida.

— Ah, a maioria do pessoal que participa também é!

Tatiana esboçou um sorriso quase inexistente antes de voltar ao Mupy.

Após chegarem à enorme quadra de basquete coberta onde um palco fora armado para as representações doscosplayers e uma centena de cadeiras enfileiradas para os espectadores, os dois amigos percorreram o espaço entre os dois grandes grupos de cadeiras olhando à sua volta à procura de bons lugares.

— Ei, vamos sentar ali — disse Rodrigo, apontando para a terceira fileira a partir do palco.

Ambos sentaram-se no meio da fileira, que estava relativamente vazia. No entanto, trinta segundos depois, um alto e corpulento Alphonse Elric, com armadura, sentou-se bem na frente dos dois, tapando-lhes a visão.

— Tá de zoação, né? — disse Rodrigo baixinho, ele e Tatiana se entreolhando.

— Deixa, vamos mudar de lugar — disse-lhe Tatiana.

Eles pularam dois lugares para a esquerda e sentaram-se de novo. Tatiana olhava casualmente à sua volta, notando o quanto aquela quadra ficava estranha com tanta gente vestindo roupas coloridas. Nem parecia a quadra da sua escola. E nem mesmo durante os saraus diurnos organizados pelas professoras de português e literatura com a presença de metade do ensino fundamental e todo o ensino médio a quadra ficava tão cheia.

Uma jovem entrou no palco com um microfone na mão.

— Boa tarde, pessoal! — disse ela, num tom infantil e alegre. — Prontos para a primeira apresentação de cosplay daprimeira edição do Anime Rakuen? Noooossa, eu tô muito animada!

A plateia riu. A forma como a apresentadora falava era esdrúxula, mas de um jeito cômico, lembrando alguns de uma ou outra personagem de anime com uma persona similar. Rodrigo recordou-se de Akira Kogami, de Lucky Star, o que o fez rir ainda mais. Ele só esperava que aquela apresentadora não tivesse um lado mal-humorado e ligeiramente sádico.

— Para a primeira apresentação — continuou a apresentadora —, teremos uma dupla! Fazendo uma cena que acho que a maioria aqui conhece! Bom, eu espero, porque né!, os que não conhecem não sabem o que estão perdendo! Podem entrar, Heitor e Jorge, como Ichigo e Byakuya!!

Dois jovens entraram no palco e foram recebidos com muitos aplausos, logo em seguida começando sua apresentação. Era a encenação da ilustre batalha entre Ichigo Kurosaki e Byakuya Kuchiki, da série Bleach, que era uma das preferidos de Rodrigo. Os atores diziam suas falas com confiança e se movimentavam tais quais os personagens. O público estava tão empolgado que uns torciam por Ichigo, outros por Byakuya, mesmo sabendo o desfecho oficial da luta. Ao final, com o choque entre as Bankai fictícias dos dois Shinigami, a plateia foi ao delírio, e em seguida aplaudiram assim que foi anunciado o fim da apresentação.

— Ficou do caramba essa, hein! — comentou Rodrigo com Tatiana durante os aplausos, assim que a apresentação terminou.

A apresentadora “Akira” (assim agora apelidada na mente de Rodrigo) retornou ao palco para anunciar a segunda apresentação.

— Isso foi demaaaaaais, não foi?? — disse ela. — Digam que foi!!

O público soltou gritinhos de elogio e aplaudiu novamente.

— E agora vem uma apresentação muito interessante! — continuou “Akira”. — Uma que provoca tristeza, agonia, desespero, trauma… Não, não é um show do Restart! É nosso próximo participante Túlio como Shiiiiinji Ikariiiii!

Um garoto entrou no palco trazendo uma cadeira. Acenou para a plateia que o aplaudia, pôs a cadeira no centro do palco e sentou-se nela, enquanto “Akira” deixava o palco.

A segunda encenação foi mesmo um tanto curiosa e incomum. Era um monólogo interior de Shinji Ikari de Evangelion, sentado na cadeira, cabisbaixo, exprimindo suas emoções de forma livre e baralhada. No entanto, a interpretação foi uma das melhores e mais fiéis que muitas pessoas da plateia já haviam visto, o que lhe arrancou aplausos ainda mais fortes do que no fim da primeira apresentação.

— Ainda acha que todos são péssimos atores? — disse Tatiana a Rodrigo enquanto aplaudiam.

— Ah, esse aí é a exceção da exceção! — replicou Rodrigo.

Parecia que tudo correria na mais completa normalidade ao longo de todas as apresentações, mas a terceira delas guardava uma surpresa. Uma que para todos ali não passaria de uma grande inovação, mas que para Tatiana e Rodrigo era algo muito mais grave.

Um garoto, vestido de Tidus, e uma garota, vestida de Yuna, entraram no palco lado a lado, de mãos dadas. Tatiana e Rodrigo haviam jogado Final Fantasy X, então ambos deduziram que eles representariam a bela cena romântica subaquática entre os dois personagens.

— E agora teremos Dário e Sabrina fazendo uma cena muito kawaii como Tidus e Yuna! — disse “Akira”, com o casal ao seu lado. — E parece que vamos ter uns efeitos especiais! Opa! Melhor eu fechar a matraca antes de revelar tudo! Mata ne!

A apresentadora deixou o palco saltitante, e a plateia riu e aplaudiu. O breve silêncio que se seguiu logo deu lugar a uma música plácida que inundou a quadra: “Suteki da ne”.

— Previsível! — cochichou Rodrigo para Tatiana, com um sorrisinho maroto.

— Shh! — sussurrou de volta a garota.

Dário e Sabrina — ou Tidus e Yuna — começaram sua apresentação, aproximando-se um do outro e olhando-se como se realmente fossem apaixonados um pelo outro na vida real.

Foi quando aconteceu. Algo surgiu entre o casal. E lentamente os circundou, fluindo com beleza na forma de pequenas correntezas.

Era água. Pura e simples água. Rodeados por ela, Dário e Sabrina giravam e fingiam estarem submersos em um lago, dançando, assim como acontecia no jogo.

A plateia olhava impressionada, muitos faziam comentários de deslumbramento e outros assobiavam alto e davam gritinhos de incentivo. De fato os efeitos especiais, fosse lá como os dois atores os estavam utilizando, eram ótimos e todos estavam adorando. Mas era tão estranho. Não havia nada como máquinas, espelhos, projetores ou algo assim que pudesse produzir tais efeitos.

Já Tatiana e Rodrigo… olhavam aquilo com um misto de indignação e incredulidade.

— Como é que eles fazem uma coisa dessa aqui?! — disse Rodrigo, o mais baixo possível para não atrair a atenção de ninguém. — Efeitos especiais o cacete! Esses sem noção jogaram “Elemental”!

— Vamos ter que ir lá parar isso — disse Tatiana, levantando-se da cadeira.

— Hein?!

— Anda!

Aquilo seria a coisa mais vexante que Rodrigo já fizera na vida, mas, mesmo relutante, lá foi ele atrás de Tatiana para impedir uma possível tragédia. Quando os dois estavam andando em direção ao palco, a situação piorou: agora pequeninas luzes flutuavam por entre a água, tornando a encenação ainda mais bonita e fiel ao que acontecia no jogo, e provocando mais maravilhamento na plateia. Tatiana tinha de admitir que o casal fora bastante criativo com os “efeitos especiais”, mas aquilo tinha de parar imediatamente.

— Ei, vocês dois — chamou ela enquanto subia as escadas até o palco —, isso tem que parar, sério.

Surpresos, Dário e Sabrina interromperam a sua dança e voltaram-se para Tatiana. A água ao seu redor caiu ao chão e as luzes se dissiparam. A música parou de tocar, e o público prontamente iniciou uma série de reclamações e vaias, mandando que Tatiana e Rodrigo saíssem do palco. “Akira” veio correndo até os quatro com o microfone na mão.

— Que que cês tão fazendo? — perguntou ela à dupla de invasores da forma mais educada que pôde, com o microfone abaixado. Voltou-se então para o casal que teve sua encenação interrompida. — Vocês conhecem eles? Eles fazem parte da sua apresentação?

Antes que pudessem responder, Tatiana falou:

— Olha, desculpa, mas isso é muito importante, eles não podem continuar. — A menina olhou para Dário e Sabrina de forma séria, com uma sobrancelha erguida, e perguntou: — Não é?

Os dois trocaram olhares nervosos, como se desde o início estivessem indecisos sobre se deviam fazer aquela apresentação ou não, e agora, com a interrupção de Tatiana e Rodrigo, tivessem certeza de que haviam cometido um erro.

— É — disse Sabrina. — A gente vai parar.

“Akira” não entendeu nada.

— Hã… bom… então tá. Mas aí, obviamente, vocês tão automaticamente desqualificados. Tudo bem?

— Tudo — disse Dário.

Hesitante e ainda confusa, a apresentadora dirigiu-se à plateia, falando ao microfone:

— Infelizmente, a dupla Sabrina e Dário não vai poder continuar com sua apresentação por motivos… que preferem não dizer.

A lamentação da plateia era nítida, dizendo “Aaaaahh…” e vaiando Tatiana e Rodrigo.

Dário pediu o microfone emprestado à apresentadora e disse ao público:

— Eles não têm culpa de nada. Foi decisão nossa. Mas obrigado pelo incentivo.

Dário devolveu o microfone e “Akira” pediu que os quatro deixassem o palco. Tatiana e Rodrigo desceram as escadas primeiro, e Sabrina e Dário desciam logo atrás, mas no meio da descida, Dário puxou Sabrina de volta para o palco, foi até a apresentadora e falou ao microfone:

— Ah! Só faltou uma coisa.

E ele e Sabrina se achegaram, dando as mãos, e se beijaram. Isso exaltou a plateia como nunca, fazendo muitas pessoas aplaudirem e assobiarem.

Tatiana e Rodrigo esperaram pelo casal ao lado da entrada para a quadra. Os dois caminharam até eles de mãos dadas aos passos mais lentos possíveis, tentando adiar o quanto pudessem uma conversa sobre “aquele assunto”.

— Felizes? — perguntou Tatiana, nada feliz, assim que pararam à sua frente.

— Você é uma Elemental? — perguntou Dário antes de mais nada.

— O que você acha? Seus truques lá podem ter enganado todo mundo, mas o Pneuma que vocês liberam quando usam seus poderes não escapou da nossa percepção.

— Pneu…? — Sabrina parecia não compreender a palavra.

— Nem isso o Dimitri explica pra vocês quando jogam o joguinho dele, né? — constatou Tatiana, sacudindo de leve a cabeça.

— É porque a gente não conhece o Dimitri — explicou Dário. — Um amigo meu sim. E foi esse amigo que ensinou a brincadeira pra gente.

— Caramba… — disse Rodrigo. — Até onde isso vai se espalhar?

Tatiana sugeriu que os quatro fossem dar uma volta, enquanto ela explicaria a Dário e a Sabrina tudo o que tinha de ser explicado. Chegaram ao pátio, e Tatiana permanecia calada, decidindo por onde começar, embora já tivesse feito isso outras vezes. Mas cada vez era única. Era necessário uma aproximação diferente dependendo de para quem explicava. Um adolescente mais velho teimoso, um mais novo revoltado, uma garota quase adulta suicida… Desta vez era um casal da sua idade — quinze, dezesseis anos —, que parecia até bastante cooperativo. Isso era bom.

— Então… vocês não vão falar nada? — perguntou Dário, depois de um minuto vagando pelo pátio.

— Tava só pensando na melhor maneira de falar — disse Tatiana, parando de andar. — Mas acho que vocês são do tipo que vão compreender bem. Então…

A jovem interrompeu-se, arregalando os olhos. Rodrigo fez o mesmo. Dário e Sabrina perceberam que o semblante dos dois agora era de assombro, o que os deixou assombrados também.

— Ei — disse Dário —, que que fo…?

E ele e Sabrina presenciaram um fenômeno estranhíssimo. Próximo ao ipê-branco no centro do pátio, uma esfera azul de luz irrompeu em pleno ar, flutuando. Segundos depois, ela se dilatou de forma súbita e veloz, atravessando os corpos dos quatro adolescentes. A pequena esfera tomara a forma de um imenso domo de luz azul cujo diâmetro era só um pouco menor do que o do pátio da escola.

— O que que é isso?! — perguntou Dário.

— Dário! — chamou Sabrina, apavorada. — As pessoas… sumiram!

Era verdade. Toda aquela multidão que lotava o pátio do Colégio Arcádia, desfilando com seus cosplays, tirando fotos, comprando produtos nos estandes… simplesmente desaparecera. Até a música que ecoava por toda a escola cessou de súbito.

E então, a manifestação de um novo fenômeno: assim como a pequena esfera azul que surgira em pleno ar, agora foi a vez de quatro triângulos invertidos feitos de luz vermelha se formarem no alto, alinhando-se um ao lado do outro logo em frente ao grande ipê-branco. A mínima e delgada fenda que havia no centro de cada triângulo se alargou, adquirindo um formato parecido com um olho humano. De seu interior, repercutiram rosnados altos e ferozes.

— Na… não me diz que… são monstros ou coisa do tipo? — disse Dário, esforçando-se para manter a calma.

Tatiana ergueu as sobrancelhas.

— Otakus sempre são mais rápidos na hora de entender isso — disse ela.

Dos buracos em forma de olho, que já haviam se alargado o máximo que podiam, saltaram quatro criaturas, uma de cada triângulo, aterrissando poucos metros à frente de Tatiana e Rodrigo. Basicamente, eram canídeos, quadrúpedes e tinham o tamanho de cães de grande porte, mas, de resto, Dário e Sabrina jamais haviam visto algo parecido antes no mundo real. Seus corpos pareciam ser feitos de uma substância meio líquida, meio sólida, como plasma, e eram de cor escarlate. No lugar de seus olhos, havia buracos que emitiam uma aura negra infinita. Eram criaturas horríveis, que faziam o casal de cosplay se manter o mais afastado possível — e era justamente isso o que Tatiana e Rodrigo queriam.

— É melhor vocês ficarem aí — disse Rodrigo. — Isso é com a gente.

Tudo aconteceu de forma tão impressionante e rápida que Dário e Sabrina ficaram embasbacados. Parecia até que os poderes e a velocidade com que Tatiana e Rodrigo lidavam com aquelas criaturas assustavam mais do que as próprias criaturas.

Rodrigo juntou as mãos bem abertas e os dedos unidos com as palmas voltadas uma para a outra, formando uma cruz. Logo após, ele aos poucos afastou uma mão da outra. Naquele instante, duas das criaturas avançaram em sua direção e pularam para abocanhá-lo. Porém, linhas purpúreas desenharam-se em torno das bestas, formando cubos e aprisionando-as em seu interior. Rodrigo uniu as mãos novamente com rapidez, batendo as palmas, e ao mesmo tempo os cubos roxos encolheram até desaparecerem.

No mesmo momento em que duas das criaturas investiram contra Rodrigo, as outras duas dispararam em direção a Tatiana. Previsíveis como eram, a garota esperou que eles fizessem o usual: saltassem e tentassem morder sua presa. Assim que deixaram o chão, Tatiana correu sua mão pelo ar à sua frente, da esquerda para a direita, vertendo centelhas cor de cobre. Bastou as centelhas entrarem em contato com as feras que elas ficaram paralisadas em pleno ar, como estátuas, uma atrás da outra. Na verdade, ainda se moviam, mas era como se sua velocidade de movimento tivesse sido reduzida a meio centímetro por segundo.

Tatiana levou a mão à sua pistola branca — uma Desert Eagle — retirou-a do coldre e apontou-a, com uma só mão, para o rosto de uma das criaturas. O cano da arma a poucos centímetros de seu focinho.

— Essa arma é de verdade?! — perguntou Dário, perplexo.

— Ninguém nunca pergunta — respondeu Tatiana.

E atirou, à queima-roupa, provocando um barulho ensurdecedor. Mesmo com um coice tão forte, Tatiana manteve a arma firme em sua mão. O tiro atravessou as duas bestas escarlates, e ambas estouraram, transformando-se em várias luzes azuis que se elevaram ao céu do pátio aberto, passando através da abóboda do domo de luz.

Tatiana guardou sua arma e voltou-se para Dário e Sabrina, que se aconchegavam um ao outro, atônitos.

— Muito bem… — disse ela, cruzando os braços. — Acho que agora que isso tudo aconteceu, fica até mais fácil. Pelo menos vocês têm uma referência visual.

Tatiana e Rodrigo se prepararam para as explicações e, em seguida, finalizarem com uma bronca. Aquela seria o quê, a quinta vez que repreenderiam adolescentes inconsequentes que participavam de um jogo estúpido para obter poderes sobrenaturais? Felizmente, a situação de Dário e Sabrina era reversível, e eles não mais correriam o risco de atrair aqueles seres.

Pouco depois do início da explanação, o enorme domo de luz azul que cingia o pátio emitiu um som de vidro se rachando. Em poucos segundos, ele se quebrou em mil pedaços que esvaíram ao cair, e todas as pessoas reapareceram, andando, rindo e conversando como se nada tivesse acontecido. Dário e Sabrina sobressaltaram-se, mas Tatiana e Rodrigo acalmaram-nos, dizendo que estava tudo bem, e aproveitaram para usar aquilo para ilustrar uma parte do que explicavam.

— É mais ou menos isso, na prática — disse Tatiana, após dez minutos de elucidação, um recorde de tempo. Ou ela e Rodrigo estavam ficando bons naquilo ou o fato de Dário e Sabrina serem otakus realmente ajudava na compreensão das coisas, pensou. Provavelmente os dois. — Quem ainda quiser se tornar um Elemental Completo como a gente, fique à vontade.

Dário fitou o chão com revolta em seus olhos.

— Como… como esse Dimitri… sabendo dessas coisas… continua fazendo o que faz? — perguntou-se ele, dando tudo de si para não esmurrar o chão.

— É, como é que ele faz isso com as pessoas?! — questionou Sabrina.

— Elas fazem isso com elas mesmas — respondeu Tatiana. — O Dimitri só oferece a possibilidade. Vocês e alguns outros são do tipo que conhecem essa brincadeira, mas não as consequências dela, porque não aprenderam sobre ela com o Dimitri, mas com terceiros.

— Meu amigo… — disse Dário, arrependido.

— Ele não só contou sobre ela pra vocês como também fez vocês Despertarem. Ou melhor, Semidespertarem. — Tatiana fez uma pausa antes de prosseguir: — Façam um favor a si mesmos e às outras pessoas: esqueçam essa brincadeira ou jogo ou seja lá como o Dimitri gosta de chamar ela.

Rodrigo sorriu e disse ao casal:

— Vocês disseram que já tão há dois dias com esses poderes. Como vocês são Elementais Incompletos, eles devem desaparecer até o fim de hoje.

— Até lá… — disse Tatiana. — …é melhor a gente ficar junto.

Dário e Sabrina sentiam-se como se tivessem levado uma surra de palavras, ainda com dificuldade de digerir tudo o que fora explicado, mas assentiram com a cabeça, agora cientes dos riscos que corriam só por ter aqueles poderes.

— Você conhece esse Dimitri? — perguntou Sabrina a Tatiana.

— Ele é… meu ex-namorado. E hoje meus poderes são permanentes… de certa forma graças a ele.

Sabrina e Dário ficaram abismados, não querendo nem pensar como seria estar no lugar de Tatiana e Rodrigo.

— Vocês disseram que são namorados, não é? — perguntou Tatiana, antes de concluir o raciocínio: — Então aqui vai uma dica: pense no que está fazendo consigo mesmo antes de fazer alguma coisa pelo outro. Talvez não valha tanto a pena quanto você imagina. Talvez esteja sacrificando demais de você. E no fim… quem precisa ser salvo é você.

Tatiana voltou a caminhar, dando as costas ao casal de namorados. Rodrigo mostrou-lhes um sorriso compadecido e seguiu a amiga.

Dário e Sabrina se entreolharam.

Sorriram, como se não tivessem ouvido nada.

E apertaram as mãos dadas com mais força.

— Prometo que não sou um Dimitri pra te forçar a fazer nada e te decepcionar — disse Dário.

— Eu também — disse Sabrina. — Mas eu enfrento o que tiver que enfrentar se for pra ficar com você e te proteger.

— Essa fala é minha! — brincou Dário. — …Mas e se eu fosse um Elemental Completo?

— Eu ia me tornar uma também.

— Tá louca?! Eu não ia deixar. Cê viu aqueles monstros, não viu?

Sabrina deu um sorriso provocador e correu para alcançar Tatiana e Rodrigo, parando no meio do caminho e virando-se de novo para o namorado.

— Queria ver você tentar impedir! — disse ela, antes de volver-se e voltar a correr.

Dário sorriu consigo mesmo.

— É isso o que eu gosto tanto em você — murmurou ele.

E correu para alcançá-los a ela e a seus novos amigos.

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