Degustação: Mundo Monstro – O estranho caso do vampiro assassino

Por Gian Danton

Capítulo 1 – Sobre uma cidade estranha

 

 

Embora eu já não seja mais uma criança e talvez a memória esteja me traindo, olhando para trás, chego à conclusão de que conhecer o Senhor Guilherme foi a coisa mais importante que já me aconteceu. Sim, acho que qualquer pessoa que teve contato com ele saiu mudada. Hoje vejo esses sábios doutores falando sobre educação e eles dizem que só aprendemos quando mudamos. Se é assim, nunca aprendi tanto quanto quando estive como pupilo do senhor Guilherme, pois nunca mais mudei tanto. Ele era um bom homem, que me ensinou muitas coisas e é uma pena que tenha morrido tão tragicamente e tão novo.

Eu tinha apenas 12 anos quando fui enviado para que ele fosse meu mestre. Meu pai era um pobre agricultor e durante muito tempo passei noites acordando, tentando adivinhar o que ele deu em pagamento para que Guilherme me aceitasse como seu pupilo. E, no final, era algo tão prosaico e óbvio…

Era uma bela manhã de primavera quando saí de minha casa. As flores do jardim, que minha mãe tanto adorava, estavam floridas e pareciam fazer festa para o sol, dançando ao sabor do vento. Eu me despedi dela na varanda. Minha mãe chorou e me abraçou como se quisesse me segurar para sempre com seus braços. Meu pai era um homem simples, que temia o novo e queria passar o menor tempo possível na cidade, então tossiu baixo e lembrou que o trem saía logo. Esse pareceu ser um sinal para que minha mãe me soltasse. Mesmo assim, ela ficou na varanda, enxugando com um lenço velho as abundantes lágrimas de seu rosto.

Fomos de charrete até a estação e ficamos esperando a locomotiva. Nem na estação, nem no começo do trajeto vi qualquer coisa de diferente, qualquer indício que estávamos indo para a cidade perdida.

Meu pai seguia em silêncio ao meu lado. Diziam que ele já tinha ido para a cidade algumas vezes e sabia se orientar nela, mas ele falava pouco sobre isso e eu adivinhava que a experiência havia sido ruim para ele.

Depois da última estação antes da cidade é que foi possível observar que havia algo estranho. Sons estranhos, sussurros, arranhões nas paredes da nossa cabine…

Meu pai havia me falado algo sobre o que eu ia encontrar, mas nada poderia me preparar para o que vi na estação.

Era um local normal, com seus trens e plataformas e grandes cúpulas de vidro. O diferente eram as pessoas que estavam lá. Não só em quantidade, mas também em variedade. Muitas e muitas pessoas e muitas e muitas surpresas.

Logo que descemos, eu me deparei com um imenso homem de pêlo branco, enorme, com ombros que pareciam grudados na cabeça sem deixar espaço para o pescoço. Eu mal conseguia ver seu rosto ou seus olhos, tantos eram os pêlos de seu corpo e ele se balançava nervoso, mexendo os pés enormes,como se quisesse fazer xixi.

— Querem que eu carregue suas malas?

— Não. – disse meu pai.

— Nem mesmo seus baús? – disse o monstro. Parecia haver um ar triste em seu rosto, embora eu positivamente não pudesse ver seu rosto.

— Não, o garoto aqui trouxe pouca roupa e o pouco que trouxe eu mesmo consigo carregar….

— É uma pena. Uma pena mesmo… – fez o bicho peludo, balançando o que devia ser sua cabeça e indo embora desesperançoso.

Andamos um pouco antes que meu pai falasse comigo:

— Abomináveis… nunca pensei ver um desses por aqui… ainda mais assim, reduzido a esse triste estado…  mas dizem que estão destruindo os locais em que eles moravam…

Ia perguntar algo, entretanto tive de silenciar ao ver passar por mim outro ser peludo ainda mais estranho. Pelo que já tinha ouvido falar dele, tratava-se de um Mapinguari. Era enorme e peludo e tinha pernas tortas. Mas o detalhe que realmente chamava atenção era a ausência de cabeça e a enorme bocarra no meio da barriga. Era uma boca realmente grande, repleta de dentes finos e agudos, enfileirados de maneira desordenada. O monstro andava e falava alto para ser ouvido pelo duende com o qual conversava. Enquanto gritava, devorava batatas fritas de um grande saco de papel que trazia consigo.

— Estou lhe dizendo. – retumbava. Ela tinha mais dentes que eu e seu hálito poderia fazer cair uma estátua.

— Sei, e você… – arriscou o duende.

— Estou perdidamente apaixonado.

— Rapaz, eu não sei se isso vai dar certo…

— Claro que vai. Ela é minha alma gêmea!

— Ela pode devorar você!

O mapinguari olhou intrigado para o duende, como se não acreditasse no que estava ouvindo:

— Sério! Ela é uma mapinguari. Vocês têm uma fome de monstro! Diga se não é verdade…

— Bem…

— Estou lhe dizendo, amigo. Ela só está pensando no jantar…

O mapinguari começou a chorar:

— Você não respeita meus sentimentos!

Seguiu-se uma cena estranha. O mapinguari dobrou-se para colocar a cabeça, ou o que deveria ser a cabeça no ombro do duende. Ficou lá, chorando, enquanto o outro balançava a cabeça e batia em suas costas, consolando-o:

— Você é sentimental demais, meu amigo…

Mais à frente, uma fênix fazia seu show. Ela se aninhava como se fosse dormir ou morrer. Havia um minuto de suspense e, de repente começava a aparecer do nada um belo fogo de todas as cores que a envolvia e parecia hipnotizar os que passavam por ali. Súbito o fogo começou a estourar e a soltar pequenos fogos de artifício que voluteavam no ar, transformando-se em belas espirais. A ave queimava até que só sobrassem cinzas. Então as cinzas começavam a se recompor e saía de lá um pássaro ainda mais belo do que o que havia sido incinerado.

Fiz questão de parar para ver e, ao final, depositei uma moeda no chapéu no chão. Outras pessoas fizeram o mesmo, mas parece que não foi suficiente, pois quando me afastava, ouvi a ave dizer: “Todo esse esforço e esses pães-duros me dão só isso! Ainda desisto dessa vida de artista!”.

Meu pai achava que já estava ficando tarde e não queria passar a noite na cidade, de modo que foi me apressando e eu só podia ver de relance o incrível espetáculo que desfilava em frente aos meus olhos: lobisomens conversavam com vampiros, ninfas eram perseguidas por sátiros, um dragão trabalhava na cozinha de uma lanchonete, assando com seu hálito de fogo os hambúrgueres e reclamando dos fregueses.

Na entrada da estação havia um enorme cartaz com um homem loiro, de cabelos lisos e olhos penetrantes, vestido com roupas que pareciam mais chamativas que elegantes: uma espécie de terno vinho com camisa amarela, abotoaduras de diamante e uma bengala de ouro.olhos fixos   Ele fazia um gesto afetado e parecia olhar nos olhos de todos os que passavam por ali. Sob o cartaz havia os dizeres “Ciaplosss cuida de você!”, mas parecia antes que ele vigiava a todos.

Do lado de fora, uma charrete nos esperava. À frente dela, um centauro com uma plaquinha na qual se lia meu nome: Bernardo. Era um centauro forte, metade cavalo, metade homem. A metade homem estava vestido com elegância, tinha costeletas ruivas e usava um chapéu coco.

— Ah, então esse é o pupilo do senhor Guilherme! Seu pai realmente teve sorte. O senhor Guilherme normalmente não trabalha como mestre escola, mas seu pai aparentemente lhe ofereceu algo que ele não poderia recusar… meu nome é Bernardo, e eu sou o cocheiro. E então, está gostando da cidade perdida?

— É tudo muito estranho… – disse eu. E fiquei pensando em qual devia ter sido a proposta de meu pai.

— Oh, logo um garoto esperto como você se acostuma… quer se divertir um pouco? Pode ir em meu dorso…

— Oh, não. Nada disso. – afirmou meu pai. O rapaz aqui não vai se machucar. Ele vai na charrete, como um rapaz civilizado!

O centauro concordou:

— Claro, claro… só falei isso para agradar o garoto…

Isso foi um balde de água fria. Seria o máximo cavalgar em um centauro, ainda mais em um centauro simpático como aquele, e eu certamente teria ficado emburrado se não houvesse tanta coisa interessante para se ver no caminho.  A cidade perdida era um espetáculo tão curioso quanto a estação.

As ruas eram uma algazarra sem tamanho pelo qual circulavam ninfas, minotauros, faunos, basiliscos. Um unicórnio, tangido por um ciclope, e puxando uma carroça, aproximou-se de nós. O ciclope não se parecia com os seres das lendas que eram cantadas pelos antigos gregos. Era, antes, um homem magro, com uma longa cabeleira escura penteadas para trás, vestindo uma roupa larga que parecia ter sido feita para outra pessoa, muito maior. “O defunto era maior”, pensei eu, lembrando de uma anedota, mas Bernardo esclareceu o mistério:

— Está vendo aquele ali? – indagou ele, apontando com o olho para o ciclope. Vendo ele assim, não imaginam o quanto pode se tornar enorme. Um verdadeiro monstro! Por isso usa roupas tão largas… para não rasgar quando aumenta de tamanho.

Meu pai deu um resmungo, como se aquele assunto não o interessasse nem um pouco, mas eu estava estourando de curiosidade por tudo aquilo.

Quando a dupla passou por nós, eu pude ler na carroça uma placa que dizia: “Faz-se entregas e mudanças”.

 

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