Degustação – Elementais: O receptáculo do Caos
Prólogo
Faltava só uma semana para o fim das férias de verão, para o desespero de milhares de jovens estudantes da Orla das Gaivotas, um bairro localizado no litoral da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. Entre eles, estavam Gabriel e Felipe, irmãos gêmeos de catorze anos que não estavam lá muito dispostos a dar adeus aos dias de praia, surfe e saídas com os amigos, sem se preocupar com maiores responsabilidades, a não ser fazer sua cama e levar seu cachorro para dar uma volta.
Mas os dois não eram o que se podia chamar de maus alunos. Por influência de seu pai, um psicobiólogo que viajava pelo mundo para realizar pesquisas e ministrar aulas em universidades, ambos pegaram um grande interesse por temas como biologia e geografia, assim como uma simpatia enorme por pessoas e culturas estrangeiras. Eles mesmos, afinal, eram alemães de nascença, embora tivessem crescido em um ambiente típico da classe média carioca, cercados de prédios altos de condomínio, shoppings e quilômetros de praia.
Aquele dia tedioso, porém, traria mudanças radicais ao seu cotidiano, e era justamente uma família de estrangeiros originários do outro lado do globo a principal responsável por fazer a mudança dos garotos para um novo mundo. Um mundo muito mais caótico e enigmático, escondido dentro daquele em que viviam.
Seu mundo como o conheciam começou a se fragmentar naquela noite, com o que seria somente um encontro casual entre amigos…
Capítulo 1- Suspensão de Descrença
Uma olhada no relógio e Gabriel se deu conta de que estavam ligeiramente atrasados. Ele e seu irmão, Felipe, caminhavam a passos quase sincronizados pelas calçadas de pedra portuguesa que pavimentavam uma das muitas regiões comerciais de seu bairro. Os irmãos estavam em silêncio, suas mentes ocupadas com a curiosidade de descobrir por que exatamente estavam ali. O fato era que Leonardo — o Léo —, um de seus melhores amigos, ligara para os dois cerca de meia hora antes, dizendo-lhes para se encontrarem com ele e Sérgio, outro grande amigo dos gêmeos, no Messênia, uma lanchonete frequentadíssima pelos moradores — principalmente os jovens — daquela área, porque tinha algo muito importante para lhes contar, e que não falaria o que por telefone.
“Muito esquisito”, pensaram os dois. Léo era um gozador, mas parecia meio diferente do normal quando falou com eles. Não parecia ser uma brincadeira. Antes de saírem de casa, Felipe comentara com Gabriel que talvez fosse algo do gênero “vou me mudar” ou “estou com uma doença grave”, mas ambos desejaram com todas as forças que fosse algo completamente diferente — e muito menos sério.
Fosse como fosse, os gêmeos já podiam ouvir aquele vozerio sempre presente na rua onde se localizava o Messênia, vindo dos vários estabelecimentos gastronômicos da noite abafada do final de janeiro.
Aproximando-se da lanchonete, Léo e Sérgio foram logo avistados sentados na área externa, onde várias mesas de madeira idênticas estavam dispostas na calçada, próximas ao fluxo de transeuntes. Havia, sim, a área interna com ar-condicionado e banheiros, o que para muita gente seria a melhor opção durante um clima quente como aquele, mas outras pessoas preferiam um espaço mais amplo e menos lotado. Muitos jovens eram assim. Os quatro amigos que se encontrariam ali, também.
Léo e Sérgio notaram os gêmeos vindo até eles e acenaram, sorrindo.
— E aí! — cumprimentou Léo quando os dois pararam do outro lado da mesa, à sua frente. — Bem na hora.
— Só uns cinco minutos atrasados, na verdade — disse Gabriel, olhando o relógio com um sorriso contido.
— Ah, grande coisa. — Léo balançou a mão, como se aquilo não tivesse a menor importância. — Senta aí!
Era exatamente assim que Léo estava ao telefone. Mantinha o seu jeito descontraído e sorridente, mas algo na sua voz estava diferente e ele tentava, sem muito sucesso, camuflar isso.
Gabriel e Felipe puxaram uma cadeira, cada, e se sentaram. Seus corações palpitavam de ansiedade. Se aquilo era afinal uma brincadeira, era melhor que Léo parasse logo, senão iam ter um infarto.
— Que que foi, hein, Léo? — perguntou Gabriel, não aguentando mais. — Fala o que cê queria falar logo.
— Calma aê! — pediu Léo, com um sorriso nervoso. — Ninguém morreu, não, podem ficar tranquilos.
Aquilo pelo menos acalmou os irmãos. Pela atitude de Léo, não era nada tão grave, realmente. Mas, mesmo assim, cheirava a algo descomunal. Antes que pudessem elaborar qualquer outra teoria maluca, Sérgio esclareceu um pouco mais:
— É um convite.
— Convite? — estranhou Felipe. — Pro aniversário de alguém? O de vocês é só no final do ano…
— Não, não é aniversário de ninguém — disse Léo, recostando-se na cadeira e cruzando os braços. — Vocês… já ouviram falar de uma brincadeira que tem rolado por aí?
— Hã? — murmuraram os gêmeos em uníssono.
Léo e Sérgio já esperavam essa reação, mas insistiram.
— Já ouviram falar em “Elemental”? — perguntou Léo.
— Tem ficado meio famoso ultimamente — acrescentou Sérgio.
Os gêmeos se entreolharam, franzindo o rosto, um sinal claro de que não faziam ideia do que seus amigos estavam falando. Léo percebeu isso e adiantou-se para explicar.
— Tem uns grupinhos por aí que fazem essa brincadeira. Dizem que você ganha algum tipo de… poder… se fizer.
— Eu, hein, que ridículo… — comentou Gabriel, uma risada quase escapando. — Onde é que cês ouviram isso?
— Vocês conhecem uns japoneses que moram lá no nosso prédio? — perguntou Sérgio.
— Os que nunca falam com a gente mas são melhores amigos de vocês? — disse Felipe, mostrando certa indignação quanto ao fato.
— Não é bem assim… — defendeu-se Léo. — De qualquer forma, foi a Riko, a irmã mais velha, que pediu que a gente chamasse vocês aqui, hoje.
— Por quê? — perguntou Gabriel. — E… onde ela tá?
— Ela vai daqui a pouco pro… — Léo parecia hesitar em dizer o local, como se fosse algum pecado pronunciar o nome. — Pro… Píer Élida.
— Mé que é?! — Gabriel quase derrubou a cadeira ao se levantar subitamente. — Não me diz que ela anda com aquela galera! Não me diz que vocês também andam com aquela galera!
— Não, calmaí! Olha, a gente…
— Nenhum de nós frequenta aquele lugar — interrompeu Sérgio, com seu jeito calmo e controlado, salvando Léo do aperto. — A Riko vai lá por um motivo especial.
Gabriel lentamente voltou a se sentar e se acalmar. Não só pelo fato de que a forma como Sérgio explicava as coisas deixava-o mais tranquilo, como também porque Felipe o puxava para baixo pela manga da camisa para aquietá-lo.
— E que motivo é esse? — perguntou Felipe.
Léo inclinou-se para a frente, um tanto quanto empolgado. Felipe chegara ao ponto que ele queria.
— O nosso convite é: querem vir com a gente pra ver?
Sendo gêmeos idênticos, Gabriel e Felipe possuíam a grande maioria de suas características físicas praticamente iguais. Tinham um cabelo loiro e liso, de raiz escura, que ia até um pouco acima dos ombros, olhos azuis e sardas quase invisíveis na área do nariz. Suas peles eram razoavelmente bronzeadas por causa das frequentes idas à praia.
No entanto, eles também tinham pequenos pormenores que os diferenciavam, como o fato de Gabriel ter uma constituição física um pouco maior que a de seu irmão, além das franjas de seus cabelos caírem para lados opostos (sob o ponto de vista de quem os olhava, a de Gabriel para a esquerda, a de Felipe para a direita) — pormenores que, embora mínimos, já eram de grande ajuda para que pessoas novas pudessem diferenciá-los com mais facilidade.
No fim, eles eram dois irmãos muito próximos que dividiam os mesmos gostos para quase tudo, principalmente surfe e skate.
Léo era um de seus melhores amigos e vivia no mesmo condomínio que eles. Tinha cabelos lisos bastante escuros, negros mesmo, como penas de corvo, que contrastavam com seus brilhantes olhos verdes claros e expressivos que eram como esmeraldas. Não havia ninguém mais brincalhão, otimista e persistente do que ele, embora pudesse ser quase tão cabeça quente quanto Gabriel, às vezes, e isso aumentava as chances de discussões acirradas entre os dois. Eram como o ferro e a brasa que, de início, não parecem combinar, mas no fim forja-se uma bela lâmina a partir dessa união.
Sérgio completava o quarteto. Dos quatro, ele era sem dúvida o mais polido e culto. Seu jeito calmo e educado de ser se refletia também em sua aparência, pois usava óculos e tinha sempre um certo misticismo nos olhos cor de avelã. O cabelo castanho claro estava sempre muito bem penteado e menos rebelde do que os dos outros três.
Os quatro possuíam um pequeno detalhe em comum: em seus pulsos exibiam pulseiras da amizade idênticas — brancas com linhas pretas que formavam uma corrente de losangos unidos pelas pontas. Tinham um significado especial que só eles e pessoas muito próximas sabiam qual era.
— O que que essa Hiko vai fazer lá, hein? — perguntou Gabriel, pronunciando o nome com som de dois erres. — O que que ela tem a ver com essa brincadeira… hã… “Elemental”, né? E por que ela quer que a gente vá pro Píer?
— É Riko — corrigiu Léo, pronunciando o nome com o som de um erre só, como em “ereto”. — E caramba, quanta pergunta tu faz! — acrescentou, perdendo sua paciência, que já era pouca. — Eu não disse que cês vão ver?
Como ainda havia algum tempo até o horário em que deveriam se encontrar com Riko, os quatro amigos não perderam a oportunidade de tomarem um açaí geladinho antes de saírem do Messênia para sua “missão de alto risco”, mas Léo e Sérgio não quiseram falar muito sobre a finalidade de tal missão e, em vez disso, procuraram falar sobre qualquer outra coisa para distrair Felipe e Gabriel — na medida do possível, pois os dois, insistentes, continuavam a questionar enquanto os garotos caminhavam em direção à praia, para o infame Píer Élida, um local onde grupos de adolescentes — que mais poderiam ser considerados gangues — nada amigáveis se reuniam nas noites de finais de semana (agora, durante as férias, quase todos os dias). Menores de idade fumavam cigarro, tomavam bebidas alcoólicas e até mesmo usavam drogas ilícitas. E jovens fora de seu estado normal muitas vezes faziam besteiras.
Não era à toa que Gabriel e Felipe receavam ir lá, pois por mais que fizessem suas besteiras de vez em quando, não fumavam, não eram chegados em bebida, nunca sequer tocariam em drogas e, principalmente, não eram pessoas que se achavam melhores do que as outras como aquele pessoal se achava. Refletir a respeito disso tudo só fazia os dois se perguntarem mais uma vez: o que diabos estavam indo fazer lá? Comprovar a veracidade de uma brincadeira estúpida e fantasiosa? “Só podia ser mesmo invenção de uma turma sem o que fazer como aquela”, pensavam.
— Se eles me matarem e tacarem meu corpo no mar a culpa é sua! — disse Gabriel, arriscando uma brincadeirinha com Léo.
— Não é, não, é da Riko! — defendeu-se Léo, quase rindo. — E eles não são assassinos, também, né? Dá um tempo.
— Cês parecem tar defendendo bastante eles, hein… — comentou Felipe.
Léo suspirou e decidiu despejar um pouco do seu descontentamento.
— Tá, nós fomos lá uma vez, algum problema? Foi pra ver a mesma coisa que a Riko quer que vocês vejam. Nem todo mundo lá é tão… monstro… quanto cês tão pensando.
— Vocês… foram? — disse Gabriel, mais perplexo do que decepcionado com os amigos. — Então cês também devem saber que parada é essa de “Elemental”, não é?
Léo e Sérgio entreolharam-se com grande desconforto. Seria um beco sem saída?
— Não é?! — insistiu Gabriel.
— Mais ou menos — disse Sérgio, optando pela resposta que desse margem a diversas possibilidades. Contornar esse tipo de situação, com uma sábia escolha de palavras, era sua especialidade.
— Caramba, cês não querem mesmo falar, hein? — disse Felipe, olhando então para seu irmão. — Melhor a gente nem insistir.
— É que, pô! Nós quatro nunca escondemos nada assim um do outro! — disse Gabriel, inconformado.
— Verdade, mas cês confiam na gente? — perguntou Léo, sério, porém amigável.
Os gêmeos olharam um para o outro com sorrisinhos no rosto. Aquilo estava ficando meloso de repente, então Gabriel resolveu adicionar um pouco do humor usual do quarteto:
— Pior que sim! — disse, suspirando.
— “Pior” que sim?! — retrucou Léo, mostrando-se ofendido, de brincadeira.
Houve uma pequena discussão inofensiva entre os dois. Felipe e Sérgio sacudiram a cabeça, contendo o riso. Tudo voltara ao normal. Mas o Píer Élida, estendendo-se sobre a negridão do oceano como se fosse uma passagem para o Hades, estava logo ali em frente, do outro lado da avenida que percorria a orla.
Se a noite era mesmo uma criança, aquela seria uma criança medonha e bestial…
O extenso caminho sobre o mar — calçado de pedras portuguesas pintadas em listras de branco, azul e vermelho e ladeado por rochas sobre a areia e as águas — parecia infinito para os quatro forasteiros que valentemente adentravam território hostil. A cada cerca de cinco segundos, passavam por sujeitos que ou os ignoravam ou os fulminavam com os olhos como se esperassem que estivessem totalmente de costas e desatentos para então dar o bote.
À esquerda, encostada no parapeito de madeira, uma garota vestida toda de preto, com piercings no nariz, boca e orelhas, cabelos negros levemente frisados como que eletrocutados e pele lívida fumava um cigarro com indiferença a tudo ao seu redor. Mas quando deparou com aquele grupo de quatro estranhos que parecia evitá-la a todo custo enquanto passava, lançou um olhar carrancudo e gélido através da fumaça que soprava, como se lhes pusesse uma maldição.
Logo em seguida, à direita, um casal de mais ou menos dezessete anos vestindo roupas largadas com direito a muitas correntes e metais nas calças e pulsos beijava-se fervorosamente. Nem sequer notaram a passagem dos quatro garotos que os fitavam com bisbilhotice. Léo ainda se permitiu um sorriso ao brincar com a ideia de que eles poderiam ser membros hardcore do fã-clube brasileiro do Iron Maiden.
Novamente à esquerda, dois meninos e uma menina, que deviam ter a mesma idade dos quatro, acompanhavam-nos com os olhos como se dissessem: “Se continuarem, não tem mais volta. Vocês foram avisados.” E mesmo assim eram, de longe, os que pareciam mais amigáveis ali até então. Vestiam-se até de forma mais simples e leve, mais de acordo com uma região praiana durante o verão. Podiam muito bem ser colegas de sala com quem os quatro falariam normalmente todos os dias, mas, se estavam ali, não deviam ser do tipo com o qual gostariam de se misturar muito.
Um dos dois garotos abria e fechava a mão como se quisesse livrar-se de um formigamento. Felipe então notou algo peculiar. Podia jurar que viu a mão do garoto brilhar por um momento. Primeiro pensou que ele poderia estar segurando um isqueiro que não viu, mas o brilho era branco, branquíssimo. A chama de um isqueiro era — ou pelo menos deveria ser — alaranjada. Então o que poderia ser aquil…?
— Lipe?
No susto, Felipe girou a cabeça para a frente, encontrando os olhos preocupados de Gabriel, que perguntou:
— Que foi?
— Nada! Só… me acostumando com o lugar.
Gabriel calou-se, compreensivo, pois ele mesmo não estava muito à vontade ali também.
Felipe deduziu que nem seu irmão nem seus amigos haviam percebido o mesmo que ele. Preferiu não falar nada. Podia ser só sua imaginação, afinal. Mesmo assim, ele e Gabriel nunca escondiam nada um do outro, por mais bobo que fosse o fato. Mas dessa vez, achou que fosse um pouco bobo demais.
No fim do píer, os quatro podiam ver um pequeno aglomerado de cerca de dez pessoas. Para Felipe e Gabriel, que nunca estiveram ali antes, o mais provável era que fosse composto pelo pessoal mais barra-pesada do píer, já que durante sua peregrinação até aquele momento, não haviam visto mais do que seis pessoas e consideravam esse um número insignificante para boatos tão assustadores a respeito do lugar. De tantos em tantos segundos, todos do grupo explodiam na gargalhada, o que os gêmeos interpretaram como não sendo um bom sinal, pois na sua visão, podiam estar bêbados ou drogados. Se resolvessem praticar algum ato agressivo contra os nada bem-vindos visitantes, seriam dez contra quatro. Só de pensar nisso já fazia os corações dos irmãos dispararem.
— Ei! — disse Léo, chamando a atenção dos amigos. — Tô vendo a Riko!
— Ela tá com eles?! — perguntou Gabriel.
— Não acho que ela esteja com eles — corrigiu Sérgio, sempre na maior tranquilidade. — Mais pra contra eles.
— Hein? — estranhou Felipe.
O quarteto aproximou-se do grupo à surdina, posicionando-se atrás de três adolescentes que pareciam tão entretidos com o que ocorria ali no meio do círculo formado por todos que nem os notaram.
— O que você tá fazendo é totalmente errado, antiético, e pode colocar todo mundo aqui numa encrenca muito maior do que você imagina — disse uma garota de longos cabelos vermelhos vivos presos em um rabo-de-cavalo, encarando um rapaz um pouco mais velho do que ela.
O rapaz parecia muito cheio de si. Usava um gorro escuro, apesar do calor do verão, e roupas casuais que não iam além de uma camiseta amarela onde havia escrito “IF YOU CAN’T LAUGH AT YOURSELF, LET ME DO IT FOR YOU!” e jeans pretos com pequenos rasgos estilizados. Alguns centímetros de seu cabelo loiro escuro escapavam do gorro e chegavam a cobrir parte de seus olhos castanhos. Ele fitava a menina com um sorriso orgulhoso. Devia ser algum tipo de “líder” por aquelas bandas, deduziram os gêmeos.
— Peraí, ô, Japonesinha! — disse ele, erguendo a mão. — Só dei pro pessoal aqui o que eles queriam, só isso! É uma brincadeira.
— Mexer com esses poderes não é uma brincadeira — retrucou a menina, inabalável.
Léo virou-se para Sérgio, falando-lhe ao ouvido:
— A gente chama ela?
— Espera, melhor não atrair muita atenção, agora.
— Ah, então essa é a tal Riko; eu já vi ela andando uma vez ou outra pelo prédio com um garotinho da idade do Jaime… — comentou Gabriel, num sussurro.
— Ainda bem que é a Riko! — disse Léo, segurando a vontade de rir. — Se não fosse, não podia peitar esses moleques.
Dentro do círculo de pessoas, Riko continuava a repreender as atitudes do garoto à sua frente. Felipe e Gabriel não entendiam do que aquilo se tratava e imaginavam se Léo e Sérgio sabiam de algum detalhe. Afinal, quando era que eles veriam o que os dois prometeram? Tudo bem que Felipe já vira algo estranho pouco antes, mas não sabia dizer se tinha alguma relação com o que seria mostrado a eles.
— E o que cê sabe sobre os Elementais, garota? — perguntou o pressuposto líder do pessoal, com ar de superioridade.
— “Os Elementais”? — repetiu Riko, levantando as sobrancelhas. — Então você sabe que isso não é uma brincadeira. “Elemental” não é um jogo, é um tipo de pessoa.
— Pois é, me falaram.
Agora Riko pareceu um pouco surpresa.
— Quem te falou? — exigiu saber ela.
— Garota, qual foi, deixa a galera aqui em paz — disse um rapaz aborrecido que formava o círculo.
O líder do local desviou seu olhar para outro ponto enquanto todos descarregavam reclamações sobre Riko, que apenas os ignorava. Ele observava algo ou alguém que lhe parecia muito interessante, atrás de Riko, atrás de três adolescentes…
— Que foi, Dimitri? — perguntou uma jovem para o líder, notando sua distração repentina.
— Olha só isso! — disse Dimitri, não respondendo a ela, mas fazendo um anúncio para todos, que imediatamente cessaram a algazarra. Ele apontou um dedo diretamente para os quatro estranhos naquela terra. — Visitas, pessoal!
— Uuuuuu! — entoou a turma de adolescentes, com sorrisos zombeteiros.
Os três que estavam na frente de Gabriel, Felipe, Léo e Sérgio se afastaram para que todos pudessem vê-los melhor. Os quatro olhavam todos à sua volta com um incômodo extremo, sentindo-se como se fossem prisioneiros da Idade Média sujeitos a humilhação pública antes de irem para a guilhotina.
— Léo, Sérgio! — disse Riko. Também não pôde deixar de notar a presença dos gêmeos. — E vocês também vieram…
Mesmo diante de uma situação como aquela, Léo arriscou um comentário descontraído para aliviar a tensão:
— Foi mal aí, a gente se atrasou!
— Não, vocês estavam escondidos, mesmo — disse Dimitri, balançando positivamente a cabeça com veemência, desmascarando-lhes com o maior prazer e provocando alguns risos em volta.
— Vocês deveriam ouvir o que a Riko tá falando — disse Sérgio, direto ao assunto.
— Por acaso vocês gostam de “jogar Elemental”, também? — perguntou Dimitri e seu alto nível de cinismo. — Se vocês sabem tão bem quanto essa garota que isso é mais que uma brincadeira, já devem ter, digamos, “chegado ao próximo estágio”, né, não?
— Ninguém aqui falou nada — retorquiu Léo, com uma seriedade que não combinava com ele.
Dimitri deu de ombros como se dissesse “Tudo bem, então”, mas mantinha aquele sorriso que já dava enjoo em Riko e seus quatro amigos. …Ou melhor, dois amigos e dois conhecidos.
Gabriel, que, juntamente com Felipe, já não estava entendendo mais nada da conversa, resolveu tirar uma dúvida ou outra com Léo, mas Dimitri cortou sua chance de fazê-lo.
— Ei, vocês dois, os gêmeos loirinhos — chamou ele.
Os irmãos permaneceram calados, só olhando-o com antipatia, como se fossem se rebaixar ao nível dele caso lhe respondessem algo qualquer.
— Vocês estudam no Arcádia, não é? Não são irmãos do Marcos? — insistiu Dimitri, que parecia até um pouco interessado nos dois.
Gabriel e Felipe não puderam deixar de sentir uma leve surpresa ao ouvir o nome do irmão ser pronunciado da boca daquele sujeito. Não conheciam o tal de Dimitri. Então como Marcos podia tê-lo conhecido? Se todas as pessoas que Marcos conhecera os dois conheciam também?
— Não vejo ele há muito tempo — comentou Dimitri.
Gabriel quebrou seu silêncio, sua curiosidade falando mais alto:
— O Marcos morreu. Faz dois anos. Como tu conheceu ele?
— Ah, sério? — disse Dimitri, numa surpresa meio fingida e sem pêsames. — Nossa, o tempo voa.
— Como tu conheceu ele? — repetiu Gabriel, mais agressivo.
— Digamos que… ele era um grande jogador de Elemental. — E novamente aquele sorriso afetado enfeitava suas palavras com uma malícia tamanha.
— Como é que é?! — inquiriu Felipe.
— É! — confirmou Dimitri. — Eu diria até que foi ele que inventou isso…
— Tá… de… sacanagem com a gente?! — esbravejou Gabriel, incrédulo.
— Não, ele era muito bom nisso, mesmo! E sabe… Já que vocês são irmãos dele, quem sabe não são bons nisso também? Não querem tentar?
— Eles não vão fazer nada, só pedi que eles viessem pra ver o perigo que devem evitar — disse Riko.
— Hm, isso é meio contraditório… E são eles que têm que decidir se isso é um perigo ou não, não acha? — argumentou Dimitri, erguendo uma mão com a palma aberta e voltando a olhar para os gêmeos. — Olhem só isso.
Lentamente, algo começou a se manifestar ao redor de sua mão. Era uma luz amarela que tremeluzia como uma minúscula tempestade de fogo. Ficava mais intensa e de cor amarela viva a cada segundo, até transformar-se em um anel flamejante com pontas que rodopiava ao redor da mão do garoto. Mesmo com tantas pessoas ali presentes, os únicos que realmente estavam boquiabertos com aquilo eram Felipe e Gabriel. Nem mesmo Léo e Sérgio pareciam considerar aquilo grande coisa.
— Isso é o poder de um Elemental — disse Dimitri, como que orgulhoso de si.
— Para com isso! — pediu Riko. — Você sabe o que isso pode atrair, não sabe?!
— Aquelas coisas são um porre, realmente. Mas e daí? São fracas de dar dó.
Gabriel olhou para Léo, que cerrava os dentes, e então para Sérgio, que exibia um olhar sombrio. Tinha até medo de perguntar vendo-os naquele estado inamistoso, mas tinha que saber:
— “Coisas”? E esses poderes… são de verdade! Cara, que que tá acontecendo?!
Sem que Gabriel e Felipe percebessem, Riko, Léo, Sérgio e Dimitri de repente arregalaram os olhos ao mesmo tempo, sentindo a aproximação de uma ameaça.
— Kenomianos! — disse Riko em voz alta, sem deixar explícito se aquilo era uma resposta ou não.
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