Vender Ebooks? Mas… e a pirataria?

by · março 8, 2011

Talvez a maior dúvida– e receio por parte dos envolvidos na produção de livros – relacionada a ebooks seja sobre a questão da pirataria. Conheço autores e editores que ainda não querem comercializar suas obras em formato eletrônico. Afinal, é possível fazê-lo sem correr o risco de ter seus produtos disponíveis para download ilegal na internet? Será que se isso acontecesse significaria prejuízo?

Ebooks podem ser facilmente distribuídos de graça por um leitor. Se muitos impressos acabam sendo encontrados em blogs para download, mesmo com o trabalho que dá digitalizar a obra toda, quanto mais os livros eletrônicos! Mas… será que isso é motivo para não arriscar um modelo de vendas que, além de beneficiar os leitores, diminua os riscos?

Claro que não podemos oferecer uma solução definitiva. Até mesmo porque cada profissional do livro pode ter uma política diferente em relação à dita “pirataria” – o próprio significado da palavra pode variar. Mas gostaríamos de compartilhar a nossa visão e postura sobre o assunto.

Os leitores e profissionais devem pensar que pelo fato de o livro estar em formato digital é mais fácil para pessoas disponibilizá-lo para download em seus blogs. Afinal de contas, não precisa de horas na frente de um scanner; o livro já é um arquivo de computador, basta upar em algum servidor de hospedagem. Mas isso não significa que acontecerá! A pergunta é: será que os leitores QUEREM fazer isso? Será que as pessoas gostam de desfrutar do benefício de uma boa obra sem retribuir aos autores?

Talvez alguns digam que sim, mas não me canso de ver cada vez mais pessoas que baixam obras na Internet e, quando gostam, compram a versão original, ainda adquirindo produtos relacionados. Provando essa tendencia, foi publicado o Manifesto sobre o Consumo de Mídias Digitais, no qual os autores prometem nunca fazer downloads ilegais se houver alternativas oficiais que facilitem o acesso às obras. Isso me leva a crer que a solução é oferecer opções criativas que beneficiem os leitores, ao invés de privá-los do benefício de um ebook acessível e sem travas de segurança, como DRMs.

DRM (Digital Rights Management, ou Gerenciamento de Direitos Digitais), é uma chave de segurança que impede usuários de copiar ou transferir seus ebooks para outras plataformas; porém o uso de DRMs acarreta em problemas para os usuários: além de impedí-los de terem backups de seus livros, não permite que migrem de aparelho. Se um leitor adquire um ebook para o Cool-er e quer migrar para o iPad, a criptografia não permite e ele é obrigado a comprar novamente a mesma obra. Parece justo? Não para nós. Além disso, usar DRM é como pressupor que os leitores são, a priori, criminosos mal intencionados. Nós da Infinitum acreditamos que são consumidores, amantes da literatura. A Editora Plus tem um texto elucidador sobre a questão do DRM e o porquê não usá-lo.

Buscando por alguns dos ebooks mais vendidos nas livrarias online, não encontrei nenhum para download, o que demonstra que o leitor age de boa fé. Recorrem ao download ilegal apenas em caso de falta de opção, principalmente em casos de obras muito caras ou traduções ainda não disponibilizadas.

Nosso relacionamento com os leitores será à base da confiança recíproca. Assim como não adotaremos nenhuma medida que prejudique os consumidores, temos fortes indícios de que poucos – quiçá nenhum – serão os que tomarão atitudes que prejudiquem à editora e aos autores.

Para diminuir ainda mais o ímpeto que talvez alguém possa ter de disponibilizar nossas obras para download ilegal, tomaremos quatro medidas que, ao invés de punir ou dificultar a vida de alguém, apenas beneficiam o nosso público:

1) Valores abaixo do mercado. A grande maioria dos ebooks comercializados no Brasil ainda possuem preço elevado, dificultando o acesso. Muitas vezes há pouca diferença entre o ebook e o livro impresso, apesar do preço de custo de produção ser muito inferior. Nossos ebooks terão valor acessível a todos.

2) Sistema de descontos. Futuramente teremos um sistema de descontos, permitindo que a cada livro adquirido em nossa loja virtual através do mesmo cadastro acumule pontos que podem ser usados na forma de descontos em futuras compras.

3) Uso de Ex-libris. Cada compra efetuada irá gerar um arquivo diferente, com um selo que identificará o dono. Ou seja, cada ebook vendido será único. Você poderá fazer o que quiser com seu arquivo, mas disponibilizá-lo para download público o fará perder seus pontos adquiridos na compra do livro em questão. Os leitores que fizeram download do livro com o selo de outrem também não receberão pontos em nosso sistema. O selo será inserido no ebook em QR Code (semelhante a este).

4) Sistema de doação. Em breve adotaremos em alguns de nossos títulos o sistema de doação. Você poderá adquirir o livro pelo valor que achar justo. Acreditamos que este modelo possa surpreender muita gente e mostrar que os leitores valorizam, sim, os bons autores.

Por fim, nossa postura, ao invés de combater a chamada “pirataria”, como se estivéssemos em uma guerra contra os leitores, é nos preocuparmos em cultivar um público fiel criando laços de amizade com o leitor.

Esperamos com isso não por fim à questão dos downloads, mas oferecer ao mercado uma nova opção para o comércio de produtos virtuais. Se este modelo obterá êxito ou se tornará obsoleto, o tempo dirá. Até lá, queremos, acima de tudo, inclusive de lucro, oferecer boa literatura.

Categoria: Infinitum Oratio

Comentários4 Comments

  1. Agora, sim, fui surpreendido. É como dizem: uma coisa só gera outra de valor equivalente. No caso, confiança, gera confiança [pelo menos na teoria].
    Isso é uma coisa que não vi ainda em outras editoras, grandes ou pequenas, por isso, parabenizo-os pela iniciativa.

    • Editor disse:

      É nisso que acredito e espero que vire moda :)

      • Marcelo disse:

        Confiança gera confiança….Claro. Da próxima vez que eu estacionar o carro, deixarei a porta aberta. Assim, quando eu voltar,alguém terá aberto a porta e deixado um bombom pra mim!
        “Por fim, nossa postura, ao invés de combater a chamada “pirataria”, como se estivéssemos em uma guerra contra os leitores, é nos preocuparmos em cultivar um público fiel criando laços de amizade com o leitor”
        Vamos acabar com a polícia e apenas abraçar o bandido que invadir nossas casas! Afinal, se o bandido sentir que tem laços de amizade conosco, ele não irá roubar! =)Aí ele vai divulgar pra todos os bandidos de como eu fui bonzinho e todos os bandidos vão de fato dar dinheiro pra mim!
        Eu tenho muito oque aprender com o povo dos livros digitais…

        • Editor disse:

          Sério que você está comparando ebooks com carros e casas? Ou melhor, pessoas que distribuem ebooks… LEITORES… com bandidos?

          De qualquer forma, ninguém disse que todos devem fazer o mesmo que nós. Essa é NOSSA proposta. Não é um manifesto.

          Pode continuar trancando seu carro, sua casa e seus livros.